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Posts Tagged ‘depressão’

Trata-se do paciente A., 66 anos, sexo masculino, casado, engenheiro aposentado. O paciente foi encaminhado para o nosso serviço com história de depressão há 2 anos, sem melhora clínica com o tratamento antidepressivo com imipramina 25mg, 2 vezes ao dia e fluoxetina, 20mg, 2 vezes ao dia.

Segundo o paciente, desde a aposentadoria, há cerca de 2 anos, apresentava-se desanimado, sem interesse em participar de qualquer atividade laborativa ou lúdica, perda de libido e tendendo a isolar-se socialmente. Negava, contudo, sentimentos de tristeza, idéias negativistas ou de morte. Mesmo com os tratamentos antidepressivos empregados, negava melhora clínica. Segundo a esposa, além desses sintomas, A. passou a exibir comportamento desinibido em ambiente social, marcado principalmente por jocosidade dirigida mesmo a pessoas não-familiares. Isso freqüentemente gerava situações constrangedoras, que A. não reconhecia como tal, representando uma significativa mudança da personalidade do paciente, que sempre fora discreto e tímido. A. também modificou os hábitos alimentares, aumentando o consumo de água e preferindo alimentos adocicados. Repetidamente, empregava palavras e gestos estereotipados, como ficar batendo os dedos na mesa. A história médica pregressa e a história familiar do paciente não eram relevantes.

O exame clínico-neurológico não evidenciou sinais neurológicos focais, sendo que, no teste de triagem cognitiva – o Mini-Exame do Estado Mental40 -, A. executou adequadamente todas as tarefas, pontuando o escore total. Desempenhou corretamente também o teste do relógio. O paciente desenvolvia invariavelmente um discurso prolixo, mas com idéias lógicas, tendendo a minimizar as alterações comportamentais referidas pela esposa. Algumas vezes, mostrava-se mais desinibido, ironizando sua condição. De nota, A. sempre trazia consigo um copo plástico com água, que freqüentemente levava à boca, justificando que “tinha muita sede”.

Os exames de triagem clínicos, hematológicos, bioquímicos e sorológicos demonstraram hipertensão leve, tratada com beta-bloqueador. Os demais dados não foram considerados relevantes. A testagem neuropsicológica, incluindo avaliações de inteligência geral, linguagem, memória, habilidades vísuo-construtivas e funções executivas, mostrou desempenho fraco do paciente apenas em relação a funções executivas e na tarefa de tomada de decisões. A ressonância magnética do encéfalo evidenciou hipotrofia dos lobos frontais e temporais bilateralmente. SPECT revelou hipoperfusão fronto-temporal.

O caso relatado foi diagnosticado com Depressão Fronto-temporal, em que sintomas de apatia e retração social podem sugerir, inicialmente, uma síndrome depressiva. Entretanto, a presença de alterações marcantes da personalidade – no caso, sob a forma de desinibição -, associada à falta de crítica, indica inequivocamente processo demencial. A ocorrência de comportamentos estereotipados e hiperoralidade reforça a hipótese de comprometimento fronto-temporal. O Mini-Exame do Estado Mental e o teste do relógio não são capazes de identificar precocemente os casos de DFT. Nesse sentido, foi realizada avaliação neuropsicológica pormenorizada, que mostrou prejuízo em testes de avaliação das funções dos lobos frontais, principalmente das regiões órbito-frontal (tomada de decisões) e dorso-lateral (disfunção executiva), e preservação das demais funções cognitivas. Os exames de neuroimagem corroboraram o diagnóstico de DFT ao demonstrarem comprometimento fronto-temporal. Em relação à terapêutica, o emprego de diferentes antidepressivos, incluindo os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, não foi eficaz no controle dos sintomas de apatia ou desinibição exibidos pelo paciente, salientando a dificuldade de abordagem farmacológica na DFT.

Algum tempo depois, através de novos exames clínicos e radiológicos, foi diagnosticado princípio de demência associada à doença de Alzheimer.

Baseado em: Teixeira Jr., A. L; Salgado, J. V. Demência Fronto-temporal: aspectos clínicos e terapêuticos. Rev. psiquiatr. Rio Gd. sul v.28, n.1 Porto Alegre Jan./Apr. 2006

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Mulher de 45 anos foi internada na unidade psiquiátrica após  tentativa de cometer suicídio com uma overdose de seu anticonvulsivante. Esta foi a terceira tentativa em 3 anos. Durante internações anteriores, a paciente havia sido iniciada em um antidepressivo e aconselhada para o acompanhamento ambulatorial na psiquiatria clínica. No entanto, ela nunca seguiu as recomendações, dando a desculpa de que seu neurologista nunca insistiu para que ela visse um psiquiatra. Ela costuma tomar o antidepressivo por 1 ou 2 meses e, em seguida, interrompe o tratamento por conta própria. A paciente foi orientada para aguardar um período de 2 semanas  até perceber a diminuição dos sintomas.

A paciente afirmou que “era depressiva desde sempre” e, provavelmente, antes de começou a sofrer de epilepsia, há 30 anos. Sua mãe sofria de episódios depressivos bem como o seu pai era um alcoólatra. Ela descreveu seus episódios depressivos ora como curtos, ora como longo. Os episódios curtos que aparecem normalmente 2 dias após quadro epilético e duram um período de 3 a 7 dias. Durante estes períodos sofria um agravamento de seu humor e ficava muito irritada, depois ela se sentia muito culpada. Era incapaz de encontrar qualquer prazer em qualquer atividade, tinha dificuldade de concentração, e perdera o apetite. Ela é capaz de dormir apenas para 2 ou 3 horas a uma hora durante estes episódios. Ocasionalmente, ela experimentava idéias suicidas que tentava ignorar, pois sabia que passariam em poucos dias.  

Os episódios mais longos são semelhantes, mas duravam entre 2 e 8 semanas, e, durante este período ela não apresentava episódios de “humor normal”. Ela afirmou que o seu transtorno do humor piorava quando apresentava sintomas de epilepsia, o que acontecia de 4 a 6 vezes por às vezes reunidos em grupos de três convulsões durante 2 dias.

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